

Esta newsletter fica com o trabalho de seguir, escolher e explicar o que realmente importa, para professores/as não terem de o fazer sozinhos/as.
Mapa de IA nas salas de aula em Portugal

Lançámos a primeira edição do mapa interativo de IA nas salas de aula em Portugal, e quem subscreve esta newsletter recebe a notícia em primeira mão, antes de o anunciarmos nas nossas redes sociais. Na segunda-feira, 5 de outubro, Dia Mundial do Professor, o mapa será lançado nas nossas redes sociais!
Cada ponto no mapa representa um/a professor/a ou bibliotecário/a escolar que já ensinou sobre IA ou com IA, e partilhou o seu plano de aula com o AI goes to school. Todos passam por curadoria feita pela Marta Pinto, sendo destacados os que colocam no centro a preocupação pedagógica, aliada a um uso responsável, crítico e ético da IA. O mapa em números: 13 planos de aula · 12 professores/as · 12 instituições educativas · 7 distritos.
E o mapa vai continuar a crescer ao longo do ano letivo. Para juntar a tua aula e escola, preenche o formulário. Leva menos de 10 minutos.
Experimenta! Uma bússola comum para a literacia em IA.

O AI literacy framework foi publicado pela Comissão Europeia e pela OCDE como um referencial em literacia em IA para o ensino básico e secundário, já disponível em português. Tem quatro áreas centrais: interagir com a IA, criar com IA, gerir a IA e moldar a IA.
O que ver primeiro: as tabelas com ideias prontas a usar “Na sala de aulas”. Um exemplo é o “AI for Oceans”. A ferramenta de filtragem interativa está, por agora, só em inglês, mas o documento principal do framework já tem versão em português.
Portugal: IA para os Oceanos numa sala de aula do 1.º Ciclo.
O jogo educativo “IA para os Oceanos” já foi integrado numa sala de aula do 1.º Ciclo pela professora Cláudia Meirinhos. Os alunos treinaram modelos reais de aprendizagem automática (IA) “a brincar”: discutiram se os dados eram suficientes, se é justo escolher peixes pela forma ou pela cor, e o que significa usar a IA para o bem. Ver plano de aula completo.

Reflexões de Professores
Mudança pedagógica! Susana Brás, professora do ensino superior, fez uma mudança pedagógica com um objetivo central: focar a atenção dos/as estudantes no processo que conduziu ao resultado final. Ler a reflexão completa.
“Uma mudança que fiz com a IA foi simples… Não proíbo, incentivo, mas com regras. Acredito que este método tenha algum impacto porque eles deixaram de ter receio de dizer que usaram, para passar a argumentar como, o que funcionou, o que deu resultados inadmissíveis. (…) O valor do projeto não está, portanto, em alcançar uma solução perfeita. Está na capacidade de construir uma solução fundamentada, compreender as suas limitações, aprender com o processo e comunicar esse raciocínio de forma clara.” Professora Susana Brás, ensino superior, 2026.
O objetivo é ensinar! Ben, professor de Geografia há mais de 15 anos, testou um plug-in de IA para corrigir trabalhos dos alunos, mas decidiu não o usar porque considera que fazer ele próprio a correção é essencial para conhecer cada aluno. Ler reflexão completa.
“Experimentei utilizar a IA para coisas como o feedback aos alunos e fiquei realmente surpreendido. Tínhamos um trabalho de geografia de 10 pontos no Google Docs. Pensei que a IA fosse um desastre, mas introduzi uma lista de critérios que queria que ela avaliasse e os comentários foram certeiros. Na verdade, houve alguns aspetos que ela identificou nos quais eu próprio senti que devia ter-me concentrado mais. Por isso, mostrei-o aos alunos, que também ficaram muito impressionados. E disse-lhes que, de um ponto de vista moral, acho isto um pouco estranho. Não vou utilizar a avaliação por IA com eles. Quero que os alunos saibam que estou a trabalhar para eles no que diz respeito a construir relações. Não quero que pensem que tudo o que têm de fazer é ir para casa, carregar num botão e o trabalho fica avaliado.” Ben, professor de Geografia, 2024.
Histórias de Alunos/as
Uma em cada quatro adolescentes portugueses procura apoio emocional no ChatGPT. Um estudo nacional do EU Kids Online Portugal (NOVA FCSH), com 2.111 crianças e jovens dos 9 aos 17 anos, revela que 85% já usam IA generativa, uma média acima da europeia. Quase metade usa-a para trabalhos escolares; um em cada quatro usa estas ferramentas para apoio emocional. Não é motivo de pânico, mas é um bom sinal de alerta: para alguns alunos, esta pode já ser uma das relações mais próximas do dia a dia. Vale a pena os professores saberem disto. Ler relatório de Ponte, Batista & Luna, 2026.
Uma política de IA escrita só por estudantes. Estudantes dos 50 estados dos EUA juntaram-se para redigir, em conjunto, um enquadramento nacional de recomendações sobre IA para quem decide políticas educativas nas escolas americanas. O texto, o STUDENTS FIRST Act de 2026, foi aprovado por 82 votos a 16 por um “Senado Estudantil” com dois representantes de cada estado. Principais medidas redigidas pelos estudantes:
- Aprendizagem autêntica: a partir do equivalente ao 9.º ano, IA só com autorização do professor, para brainstorming, estudo e edição, nunca para substituir o trabalho original.
- Literacia desde cedo:</strong> formação obrigatória em IA a partir do primeiro contacto com dispositivos digitais na escola, para alunos e professores.
- Privacidade e identidade: os alunos devem saber que dados seus são recolhidos e como são usados; se acusados de uso indevido de IA, têm direito a contestar, com revisão humana garantida.
- Decisões de grande impacto ficam com humanos: notas, disciplina e contratações nunca podem depender só de IA. Mesmo quando os professores a usam para planear aulas ou dar feedback, continuam responsáveis por rever tudo.
- Apoio emocional não se delega: a IA não substitui psicólogos escolares nem adultos de confiança; alunos que precisem de apoio a sério devem ser encaminhados para profissionais qualificados.
Notícias
UNESCO: 700 estudantes reuniram-se na sede da UNESCO, em Paris, para discutir com especialistas o seu futuro com a IA, no arranque do novo ano letivo.
EUA: Os distritos escolares de Nova Iorque e Los Angeles restringiram o uso de IA nas salas de aula para alunos até ao 8.º ano, ainda com muitas exceções, mas é um sinal de travagem depois de anos de adoção acelerada.
Portugal: Portugal subscreve a declaração internacional para uma IA segura, que apela a uma ação conjunta coordenada entre indústria, governos e sociedade. O objetivo é reforçar a supervisão sem aumentar desigualdades. (24 de setembro de 2026)
O que diz a Ciência
O teu cérebro no ChatGPT. Um estudo do MIT Media Lab acompanhou cerca de 55 estudantes universitários enquanto escreviam ensaios em três condições: com ChatGPT, com pesquisa na internet ou sem qualquer ferramenta. Cada participante escreveu ensaios em várias sessões ao longo de meses. Numa quarta sessão, os papéis trocaram: quem tinha usado o ChatGPT passou a escrever sem ajuda, e vice-versa. A atividade cerebral foi medida por eletroencefalografia (EEG) e os textos avaliados por professores. Principais resultados:
- Menos apoio externo, mais atividade cerebral. O grupo sem ferramentas mostrou as redes cerebrais mais fortes e abrangentes, o grupo da pesquisa na internet ficou num nível intermédio e o grupo do ChatGPT apresentou o envolvimento mais fraco.
- Memória e autoria mais fracas com o ChatGPT. A maioria dos utilizadores teve dificuldade em citar com precisão o que tinha escrito e sentiu menos autoria e satisfação com o trabalho.
- A ordem importa. Os alunos que escreveram primeiro sozinhos e só depois usaram o ChatGPT mostraram melhor memória e atividade cerebral mais ampla do que os que começaram com a IA.
- “Dívida cognitiva”. É o nome que os autores dão a este efeito.
Kosmyna, N., Hauptmann, E., Yuan, Y. T., Situ, J., Liao, X.-H., Beresnitzky, A. V., Braunstein, I., & Maes, P. (2025). Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task. arXiv:2506.08872. https://arxiv.org/abs/2506.08872
Treinador, não muleta. Um artigo de síntese da Science News junta vários estudos recentes sobre IA e aprendizagem, incluindo o estudo partilhado na newsletter de setembro (Bastani et al., sobre alunos de matemática). A conclusão repete-se em domínios bem diferentes: médicos que confiaram numa IA para detetar pólipos em colonoscopias “esqueceram-se do que procurar” quando deixaram de poder usar IA; estudantes que praticaram para um teste de leitura com apoio de IA desistiam mais facilmente das perguntas difíceis depois de a IA lhes ser retirada. Mas há um contraponto animador: quando a IA fornece pistas em vez de dar respostas prontas, os alunos parecem aprender tão bem como quando não têm acesso a tecnologia. “Se não te estiveres a envolver no trabalho cognitivo, não vais aprender a capacidade.” (Trent Cash, cientista comportamental; tradução do inglês)
Citação do mês
“Precisamos de educar uma geração de crianças que saiba que são elas quem pode escrever, e até reescrever, as regras da IA.” Randi Williams, investigadora em IA e educação. (Ver a TED Talk completa)

