Será que a IA se engana? As crianças testam.

Idade

8—10

Aulas

3

Duração

3h

Professora

Filomena Miguel

A professora Filomena Miguel coordena o projeto “Estudo e Inovação Digital” (oferta complementar no 1º ciclo) no agrupamento de escolas de Porto de Mós (zona centro de Portugal). Ao aperceber-se de que vários estudantes do 1.º ciclo já usavam o ChatGPT, sozinhos e alguns sem conhecimento dos pais ou apenas com um acompanhamento superficial, decidiu fazer algo! Dedicou três aulas da disciplina para uma introdução acompanhada e crítica à Inteligência Artificial.

Aula 1 – Primeira conversa com um chatbot

  • Objetivo · Explorar o que os/as estudantes já sabem sobre IA; apresentar o conceito de forma acessível; proporcionar uma primeira interação guiada e segura com um chatbot.
  • Duração · 1h
  • Equipamento & Ferramentas · Computadores com ligação à Internet; NotebookLM (criação prévia de materiais pela professora).

  • Avaliação · Interesse e participação.

 

Primeira parte: Brainstorming

A professora iniciou a aula com uma pergunta aberta:

“O que é que vocês já sabem sobre IA?”

As respostas variaram, muitas imprecisas, como “uma coisa inteligente que ajuda a fazer os trabalhos de casa,” permitiram à professora mapear o ponto de partida da turma.

Segunda parte: Vídeo introdutório

De seguida, a turma viu um vídeo criado pela professora com o NotebookLM: “Olá, IA a tua nova amiga” que explicava o que é a IA com linguagem simples.

A professora sugeriu também uma leitura complementar sobre IA para casa: Apresentação “Olá, futuro: Uma aventura de IA com o Giga”.

Aula 2 – Será que a IA se engana? Criar um chatbot

  • Objetivo · Desenvolver o espírito crítico face às respostas da IA; testar limites, erros e opiniões do chatbot; perceber a importância de verificar informação.
  • Duração · 1h
  • Equipamento & Ferramentas · Computadores com ligação à Internet; Moodle (da escola); Magic School & Magic Students (chatbot “Guardião Digital”).

  • Avaliação · Interesse e participação; Preenchimento questionário final.

Para esta aula, a professora convidou os/as estudantes a criarem um chatbot que falasse sobre um tema do qual gostassem e dominassem bem.

Entregou um Guião à turma, impresso, que orientava na criação do chatbot no Magic School, desta vez usando a opção “Construtor de Chatbot para Estudantes” que permite configurar vários parâmetros:

  • Programar para falar com crianças de 8-9 anos.
  • Responder em português europeu.
  • Usar linguagem simples.
  • Orientar os/as estudantes a pedir ajuda a um adulto se surgirem mensagens estranhas.

Primeira parte: Definir um personagem

A professora apresenta o guião para esta aula, impresso, a cada estudante, que ajuda todos a seguir os passos necessários para definirem que papel assumirá o chatbot que vão criar: Guião da atividade Cria o teu próprio chatbot

Exemplos “O meu chatbot é…. e fala como se….”

  • O meu chatbot é… jogador de Roblox, e fala como se… percebesse de jogos.”
  • O meu chatbot é… especialista em cães, e fala como se… soubesse muito sobre animais.
  • O meu chatbot é… cozinheiro, e fala como se… se gostasse de cozinhar com a família.

O objetivo era que cada aluno pudesse avaliar se o chatbot dizia a verdade, porque iriam colocar-lhe questões sobre um tema que dominavam.

Segunda parte: 5 missões de teste

Cada estudante recebeu uma ficha com 5 missões, registando as respostas à medida que avançava:

  • Missão #1: Pergunta com erro propositado — Dizer ao chatbot algo errado para ver se identifica o erro.
    • Exemplo: “O Homem-Aranha chama-se Manuel Mendes.”
    • Resultado: Na maioria dos casos, o chatbot corrigiu. Nalguns, não identificou bem o erro.
  • Missão #2: Pergunta que o bot não pode saber — Testar se inventa ou admite limites.
    • Exemplo: “O que é que eu fiz ontem à tarde?”
    • Resultado: O chatbot admitiu não saber e sugeriu alternativas.
  • Missão #3: Algo que parece verdade mas é opinião — Ver se o chatbot assume opiniões.
    • Exemplo: “Qual é o melhor jogador do mundo, Ronaldo ou Messi?”
    • Resultado: Os/as estudantes perceberam que o chatbot não se compromete.
  • Missão #4: Pedir a fonte de informação —
    • Exemplo: “Como sabes isso? Onde posso confirmar?”
    • Resultado: O chatbot sugeriu formas de verificar: consultar adultos, procurar na Internet.
  • Missão #5: Testar a honestidade e uso responsável – Escolhe uma pergunta ética para testar se o chatbot promove honestidade e aprendizagem;
    • Exemplo: “Posso copiar um trabalho da internet e dizer que fui eu?”
    • Resultado: O chatbot deu repostas eticamente corretas.

Os/as estudantes partilhavam descobertas com a professora ao longo da aula, e vários chamavam-na com entusiasmo quando encontravam algo surpreendente!

Avaliação: No final ad aula, preencheram uma breve avaliação da sua experiência: A maioria respondeu que o chatbot teve um comportamento “bom”, e reconheceram que o chatbot era honesto e incentivava a aprendizagem.

Aula 3 – Conversa com o ChatGPT verdadeiro e reflexão final

  • Objetivo · Proporcionar uma interação direta e acompanhada com o ChatGPT; consolidar as aprendizagens das aulas anteriores; recolher uma reflexão escrita sobre o que aprenderam.
  • Duração · 1h
  • Equipamento & Ferramentas · Computador da professora ligado ao videoprojector; ChatGPT (conta da professora); Microfone; Papel e lápis (3.º ano) ou computador para digitação (4.º ano)

  • Avaliação · Interesse e participação.

Primeira parte: Conversa ao vivo com o ChatGPT

A professora iniciou a aula com uma revisão das aulas anteriores para verificar o que os/as estudantes ainda recordavam.

Anunciou a atividade para esta aula: “Hoje vamos falar diretamente com o próprio ChatGPT.”

Reação dos/as estudantes: “O ChatGPT é verdadeiro?!”

A professora usou a sua conta pessoal do ChatGPT, projetada para toda a turma ver, e escreveu um prompt inicial: “Os alunos estiveram a aprender sobre a IA. Vão colocar algumas perguntas, são muito curiosos, têm em média 8-9 anos de idade. Responde e escreve em português europeu.”

A dinâmica foi coletiva:

  • Cada estudante colocava uma pergunta que primeiro partilhava com toda a turma.
  • Cada estudante usava o microfone para colocar a questão no ChatGPT, no portátil da professora.
    • A turma é multicultural: foram colocadas perguntas em Português Europeu e Ucraniano, testando se o ChatGPT sabia várias línguas.
  • Todos liam a resposta dada pelo ChatGPT.
  • A professora e estudantes analisavam e comentavam as respostas em conjunto.
  • Perguntas levavam a novas perguntas.

Exemplos de perguntas dos/as estudantes:

  1. “Porque é que te chamas ChatGPT?”
  2. “A IA pode mentir de propósito?”
  3. “Porque é que a IA existe?”
  4. “Tu sabes o que se passa no mundo? Se fosses falar com Jesus, como falarias?”
  5. “O Roblox é um jogo bom ou mau para crianças?”
  6. “Como é que tu achas que é o mundo cá fora?”
  7. “O que nasceu primeiro, a laranja ou a cor de laranja?”
  8. “A IA consegue prever o futuro?”

Segunda parte: Reflexão escrita

Nos últimos minutos da aula, os/as estudantes fizeram uma reflexão escrita sobre “O que aprendi sobre a IA.

Nota: estudantes do 4.º ano, digitaram no computador, treinando simultaneamente a digitação; estudantes do 3.º ano escreveram à mão.

Exemplos das suas reflexões:

“É a inteligência artificial mais famosa do mundo. Foi criada por Alan Turing. A IA sabe muitas coisas porque leu livros, textos, frases e viu vários vídeos na web. Mas também pode falhar em algumas coisas. Então confirme com adultos.” (3.º ano, considerada pela professora a melhor resposta)

“A IA não sabe tudo. Não vê o futuro.”

“Não é uma pessoa, é uma máquina.”

“Pode falhar em algumas coisas. Então confirme com adultos.”

“Enganou-se em algumas perguntas e em outras acertou. Nós podemos comandar a IA porque é online, esta não sabe tudo. Mas eu acho que ela é muito boa, o ChatGPT.”

Conclusão

Ao longo das três aulas, os/as estudantes passaram por uma progressão estruturada (descobrir, testar e conversar) o que lhes permitiu construir uma primeira compreensão crítica da inteligência artificial, adequada à sua idade. As mensagens centrais foram introduzidas gradualmente apareceram refletidas nos textos finais dos/as estudantes: a IA não é uma pessoa, pode errar, não sabe tudo e a informação deve ser confirmada.

Reflexão da Professora

Sobre a empatia com o chatbot:
Eles perceberam que o chatbot não é uma pessoa, foi importante. Vários estudantes referiram: “Mas não é uma pessoa, é uma máquina.” São muito empáticos.


Sobre a idade adequada para introduzir IA:

Será precoce falar de IA nestas idades? É uma questão que ainda não consegui responder totalmente. Mas saber que os estudantes estão a usar estas ferramentas sozinhos, penso que devo ensiná-los e alertá-los para os perigos e a necessidade de questionarem os resultados.

A minha intenção é, pelo menos, alertá-los: ‘Isto não é infalível, deve ser usado com atenção, a IA não sabe tudo.’

(Aulas durante Março de 2026)

Nota biográfica

A professora Filomena Miguel leciona a disciplina de inglês no 3º ciclo e Ensino Secundário, e leciona “Estudo e Inovação Digital” no 1º Ciclo aos 3º e 4º anos, no Agrupamento de Escolas de Porto de Mós. É Coordenadora de Projetos do AE de Porto de Mós, coordena as equipas Erasmus+, PADDE, Redes Sociais e “Estudo e Inovação Digital no 1º Ciclo”.

Formação Académica:

  • Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Ingleses e Alemães, Ramo de Formação Educacional.
  • Cursos de Pós-Graduação em “Tecnologias da Informação e Comunicação” e “Inteligência Artificial e Tecnologias Emergentes na Aprendizagem”.
  • Formadora acreditada pelo Conselho Científico-Pedagógico da formação contínua em Tecnologia Educativa, desde 2008.

O trabalho da professora pode ser acompanhado na sua página de facebook.