A professora Filomena Miguel coordena o projeto “Estudo e Inovação Digital” (oferta complementar no 1º ciclo) no agrupamento de escolas de Porto de Mós (zona centro de Portugal). Ao aperceber-se de que vários estudantes do 1.º ciclo já usavam o ChatGPT, sozinhos e alguns sem conhecimento dos pais ou apenas com um acompanhamento superficial, decidiu fazer algo! Dedicou três aulas da disciplina para uma introdução acompanhada e crítica à Inteligência Artificial.
Primeira parte: Brainstorming
A professora iniciou a aula com uma pergunta aberta:
“O que é que vocês já sabem sobre IA?”
As respostas variaram, muitas imprecisas, como “uma coisa inteligente que ajuda a fazer os trabalhos de casa,” permitiram à professora mapear o ponto de partida da turma.
Segunda parte: Vídeo introdutório
De seguida, a turma viu um vídeo criado pela professora com o NotebookLM: “Olá, IA a tua nova amiga” que explicava o que é a IA com linguagem simples.
A professora sugeriu também uma leitura complementar sobre IA para casa: Apresentação “Olá, futuro: Uma aventura de IA com o Giga”.

Para esta aula, a professora convidou os/as estudantes a criarem um chatbot que falasse sobre um tema do qual gostassem e dominassem bem.
Entregou um Guião à turma, impresso, que orientava na criação do chatbot no Magic School, desta vez usando a opção “Construtor de Chatbot para Estudantes” que permite configurar vários parâmetros:
- Programar para falar com crianças de 8-9 anos.
- Responder em português europeu.
- Usar linguagem simples.
- Orientar os/as estudantes a pedir ajuda a um adulto se surgirem mensagens estranhas.
Primeira parte: Definir um personagem
A professora apresenta o guião para esta aula, impresso, a cada estudante, que ajuda todos a seguir os passos necessários para definirem que papel assumirá o chatbot que vão criar: Guião da atividade Cria o teu próprio chatbot
Exemplos “O meu chatbot é…. e fala como se….”
- O meu chatbot é… jogador de Roblox, e fala como se… percebesse de jogos.”
- O meu chatbot é… especialista em cães, e fala como se… soubesse muito sobre animais.
- O meu chatbot é… cozinheiro, e fala como se… se gostasse de cozinhar com a família.
O objetivo era que cada aluno pudesse avaliar se o chatbot dizia a verdade, porque iriam colocar-lhe questões sobre um tema que dominavam.
Segunda parte: 5 missões de teste
Cada estudante recebeu uma ficha com 5 missões, registando as respostas à medida que avançava:
- Missão #1: Pergunta com erro propositado — Dizer ao chatbot algo errado para ver se identifica o erro.
- Exemplo: “O Homem-Aranha chama-se Manuel Mendes.”
- Resultado: Na maioria dos casos, o chatbot corrigiu. Nalguns, não identificou bem o erro.
- Missão #2: Pergunta que o bot não pode saber — Testar se inventa ou admite limites.
- Exemplo: “O que é que eu fiz ontem à tarde?”
- Resultado: O chatbot admitiu não saber e sugeriu alternativas.
- Missão #3: Algo que parece verdade mas é opinião — Ver se o chatbot assume opiniões.
- Exemplo: “Qual é o melhor jogador do mundo, Ronaldo ou Messi?”
- Resultado: Os/as estudantes perceberam que o chatbot não se compromete.
- Missão #4: Pedir a fonte de informação —
- Exemplo: “Como sabes isso? Onde posso confirmar?”
- Resultado: O chatbot sugeriu formas de verificar: consultar adultos, procurar na Internet.
- Missão #5: Testar a honestidade e uso responsável – Escolhe uma pergunta ética para testar se o chatbot promove honestidade e aprendizagem;
- Exemplo: “Posso copiar um trabalho da internet e dizer que fui eu?”
- Resultado: O chatbot deu repostas eticamente corretas.
Os/as estudantes partilhavam descobertas com a professora ao longo da aula, e vários chamavam-na com entusiasmo quando encontravam algo surpreendente!
Avaliação: No final ad aula, preencheram uma breve avaliação da sua experiência: A maioria respondeu que o chatbot teve um comportamento “bom”, e reconheceram que o chatbot era honesto e incentivava a aprendizagem.
Primeira parte: Conversa ao vivo com o ChatGPT
A professora iniciou a aula com uma revisão das aulas anteriores para verificar o que os/as estudantes ainda recordavam.
Anunciou a atividade para esta aula: “Hoje vamos falar diretamente com o próprio ChatGPT.”
Reação dos/as estudantes: “O ChatGPT é verdadeiro?!”
A professora usou a sua conta pessoal do ChatGPT, projetada para toda a turma ver, e escreveu um prompt inicial: “Os alunos estiveram a aprender sobre a IA. Vão colocar algumas perguntas, são muito curiosos, têm em média 8-9 anos de idade. Responde e escreve em português europeu.”
A dinâmica foi coletiva:
- Cada estudante colocava uma pergunta que primeiro partilhava com toda a turma.
- Cada estudante usava o microfone para colocar a questão no ChatGPT, no portátil da professora.
- A turma é multicultural: foram colocadas perguntas em Português Europeu e Ucraniano, testando se o ChatGPT sabia várias línguas.
- Todos liam a resposta dada pelo ChatGPT.
- A professora e estudantes analisavam e comentavam as respostas em conjunto.
- Perguntas levavam a novas perguntas.
Exemplos de perguntas dos/as estudantes:
- “Porque é que te chamas ChatGPT?”
- “A IA pode mentir de propósito?”
- “Porque é que a IA existe?”
- “Tu sabes o que se passa no mundo? Se fosses falar com Jesus, como falarias?”
- “O Roblox é um jogo bom ou mau para crianças?”
- “Como é que tu achas que é o mundo cá fora?”
- “O que nasceu primeiro, a laranja ou a cor de laranja?”
- “A IA consegue prever o futuro?”
Segunda parte: Reflexão escrita
Nos últimos minutos da aula, os/as estudantes fizeram uma reflexão escrita sobre “O que aprendi sobre a IA.”
Nota: estudantes do 4.º ano, digitaram no computador, treinando simultaneamente a digitação; estudantes do 3.º ano escreveram à mão.
Exemplos das suas reflexões:
“É a inteligência artificial mais famosa do mundo. Foi criada por Alan Turing. A IA sabe muitas coisas porque leu livros, textos, frases e viu vários vídeos na web. Mas também pode falhar em algumas coisas. Então confirme com adultos.” (3.º ano, considerada pela professora a melhor resposta)
“A IA não sabe tudo. Não vê o futuro.”
“Não é uma pessoa, é uma máquina.”
“Pode falhar em algumas coisas. Então confirme com adultos.”
“Enganou-se em algumas perguntas e em outras acertou. Nós podemos comandar a IA porque é online, esta não sabe tudo. Mas eu acho que ela é muito boa, o ChatGPT.”
Conclusão
Ao longo das três aulas, os/as estudantes passaram por uma progressão estruturada (descobrir, testar e conversar) o que lhes permitiu construir uma primeira compreensão crítica da inteligência artificial, adequada à sua idade. As mensagens centrais foram introduzidas gradualmente apareceram refletidas nos textos finais dos/as estudantes: a IA não é uma pessoa, pode errar, não sabe tudo e a informação deve ser confirmada.
Reflexão da Professora
Sobre a empatia com o chatbot:
Eles perceberam que o chatbot não é uma pessoa, foi importante. Vários estudantes referiram: “Mas não é uma pessoa, é uma máquina.” São muito empáticos.
Sobre a idade adequada para introduzir IA:Será precoce falar de IA nestas idades? É uma questão que ainda não consegui responder totalmente. Mas saber que os estudantes estão a usar estas ferramentas sozinhos, penso que devo ensiná-los e alertá-los para os perigos e a necessidade de questionarem os resultados.
A minha intenção é, pelo menos, alertá-los: ‘Isto não é infalível, deve ser usado com atenção, a IA não sabe tudo.’
(Aulas durante Março de 2026)

