A professora Cátia Pimenta Valéria, na disciplina de Espanhol – Língua Estrangeira, desafiou os seus alunos do 10.º ano a criar, com Inteligência Artificial generativa, um chatbot que ajudasse colegas de outra turma a praticar Espanhol e a preparar uma visita de estudo a Sevilha!
A turma planeou, construiu e testou um chatbot ao qual chamaram Manolo, na plataforma Mizou: “¡Descubre Sevilla con Manolo!”. O chatbot foi depois testado por uma turma utilizadora, cujo feedback regressou à turma dos criadores para que pudessem melhorar o chatbot. Pelo caminho, os alunos perceberam que trabalhar com IA não é aceitar o primeiro resultado, mas testar, questionar, verificar e assumir responsabilidade pelo que se cria.
A turma criadora trabalhou inicialmente durante duas semanas, correspondentes a oito aulas de 50 minutos. Seguiu-se uma aula de 50 minutos com a segunda turma, que utilizou e avaliou o chatbot. Depois dessa experiência, a turma criadora dispôs de mais duas aulas de 50 minutos para analisar o feedback, aperfeiçoar o produto e realizar a avaliação e co-avaliação.
Primeira parte: O contexto do projeto
O projeto nasceu da vontade de trabalhar os conteúdos de Espanhol sobre cidades, viagens e férias de forma próxima da realidade dos alunos. Com uma visita de estudo a Sevilha no horizonte, os alunos criaram “¡Descubre Sevilla con Manolo!”, um chatbot educativo para ajudar colegas do mesmo ano a praticar o Espanhol de que iriam precisar.
Segunda parte: O desafio
A atividade começou pelos conteúdos de Espanhol que estavam a ser trabalhados e pela proximidade da visita de estudo a Sevilha.
Os alunos identificaram situações em que poderiam necessitar de comunicar em Espanhol durante uma viagem: pedir indicações, utilizar transportes, procurar um monumento, solicitar informação, falar sobre alojamento, alimentação, locais da cidade ou atividades de lazer.
Foi então apresentado o desafio: “Como podemos criar, com IA generativa, um chatbot que ajude outros alunos a descobrir Sevilha e a praticar Espanhol?” O recurso seria posteriormente utilizado por colegas de outra turma do 10.º ano.
Antes de utilizar qualquer ferramenta de IA, discutiram quem seriam esses utilizadores, o que já saberiam, que dificuldades poderiam encontrar e de que forma um chatbot poderia efetivamente ajudá-los a aprender. As primeiras ideias foram registadas num documento digital colaborativo.
A turma foi organizada em equipas e o trabalho de conceção foi dividido em diferentes áreas.
Uma equipa concentrou-se nos objetivos de aprendizagem: o que deveriam os colegas aprender ou praticar durante a interação?
Outra trabalhou as regras de interação: que linguagem deveria utilizar o chatbot Manolo, que nível de dificuldade seria adequado e como deveria comunicar com alunos de iniciação?
Uma terceira equipa pensou no feedback e na avaliação: como deveria o chatbot reagir perante uma resposta correta, incompleta ou incorreta? Deveria dar imediatamente a resposta ou ajudar o utilizador a chegar até ela?
Finalmente, outra equipa trabalhou o diálogo e o fluxo da conversa, imaginando como iniciar, desenvolver e terminar a interação.
Os contributos foram registados no documento colaborativo e posteriormente discutidos em grande grupo.
Antes de se começar a construir o chatbot, os alunos tiveram, portanto, de pensar primeiro na experiência de aprendizagem que queriam proporcionar aos colegas.

A planificação realizada pelos alunos foi transferida para o Mizou e começou a ganhar forma o chatbot “¡Descubre Sevilla con Manolo!”.
Foram definidos elementos como a identidade da personagem, função, objetivos, instruções, nível de linguagem, saudação inicial, regras de interação e características do feedback. No entanto, a primeira versão não foi considerada o produto final.
Os próprios criadores começaram a “conversar” com o chatbot Manolo e a colocar o chatbot à prova. Testaram perguntas diferentes, deram respostas inesperadas, cometeram erros propositadamente e verificaram se o nível de Espanhol era adequado, se as perguntas eram claras e se o feedback realmente ajudava a aprender.
Quando surgiam problemas, regressavam às instruções e procuravam perceber o que deveria ser alterado. O processo tornou-se iterativo:
criar → testar → identificar problemas → corrigir → testar novamente
Os alunos começaram assim a perceber, através da experiência, que trabalhar com Inteligência Artificial não significa aceitar automaticamente aquilo que a ferramenta produz. É necessário verificar, questionar, ajustar e assumir responsabilidade pelo resultado.
Depois de diferentes momentos de revisão e avaliação entre pares, a turma considerou que Manolo estava preparado para encontrar os seus primeiros utilizadores reais.

Primeira parte: Privacidade e utilização responsável
O chatbot foi disponibilizado a uma segunda turma de Espanhol do 10.º ano. Estes alunos não tinham participado na sua construção e, por isso, constituíam verdadeiros utilizadores externos.
A utilização do Mizou foi realizada sem necessidade de registo por parte dos alunos. A turma utilizadora acedeu ao chatbot através de um link partilhado pela professora e, para permitir o acompanhamento das interações sem identificação nominal. Os alunos sabiam que a professora podia acompanhar as interações através do Mizou praticamente em tempo real.
Segunda parte: Conversar com Manolo
Durante 50 minutos, cada aluno interagiu com “¡Descubre Sevilla con Manolo!”, praticando conteúdos relacionados com cidades, viagens e férias enquanto descobria informação e situações associadas a Sevilha.
A utilização por uma turma diferente permitiu colocar o chatbot perante respostas, dúvidas e comportamentos que os seus criadores não tinham necessariamente previsto.
No final, os alunos responderam a um questionário sobre a experiência, considerando aspetos como a interação com o chatbot, a compreensão dos conteúdos e a utilidade do feedback recebido.
As respostas de feedback foram partilhadas com a turma que tinha criado o chatbot Manolo.

Primeira parte: Analisar o feedback e melhorar
A turma criadora analisou o feedback fornecido pelos colegas e comparou duas perspetivas:
aquilo que pretendíamos que Manolo fizesse;
aquilo que os utilizadores realmente experienciaram.
A partir dos resultados, foram identificados aspetos que poderiam ser melhorados e os alunos regressaram ao chatbot para realizar os últimos ajustes.

Segunda parte: Avaliação e reflexão final
O projeto terminou com momentos de avaliação, auto-avaliação e co-avaliação, nos quais os alunos refletiram sobre o seu contributo, o trabalho da equipa, as aprendizagens realizadas, as dificuldades encontradas e as competências desenvolvidas.
A discussão final incidiu também sobre a própria utilização da Inteligência Artificial:
- A IA fez sempre aquilo que esperávamos?
- Foi necessário corrigir ou reformular instruções?
- Por que razão foi importante testar?
- O feedback dos outros alunos alterou alguma das nossas decisões?
- Quem é responsável pelo produto final?
- O que faríamos de forma diferente numa nova versão?
Desta forma, a atividade chegou a bom porto, não com o primeiro produto criado pela IA, mas com um produto testado, questionado, revisto e melhorado pelos alunos.
Avaliação
A avaliação acompanhou todas as fases do projeto e assumiu predominantemente uma função formativa.
Durante a construção foram considerados a participação, o trabalho colaborativo, os contributos para os documentos partilhados, a mobilização dos conteúdos de Espanhol, a capacidade de justificar decisões e a participação nos processos de testagem e revisão.
Os alunos realizaram avaliação entre pares durante a construção e testagem do chatbot. A turma utilizadora avaliou a experiência através de um questionário, fornecendo uma perspetiva externa sobre o funcionamento do produto. Finalmente, a turma criadora realizou auto-avaliação, co-avaliação e avaliação do produto, tendo em consideração o processo desenvolvido e o feedback recebido.
Conclusão
A experiência permitiu trabalhar os domínios das Aprendizagens Essenciais de Espanhol num contexto próximo de uma situação real e transformar os alunos de consumidores de tecnologia em criadores de um recurso destinado a outros alunos.
Ao longo do projeto, os alunos tiveram de tomar decisões, negociar ideias, escrever para um destinatário real, testar soluções, identificar problemas e melhorar aquilo que tinham criado.
A utilização do chatbot por uma segunda turma revelou-se particularmente importante. Foi nesse momento que os alunos criadores do chatbot puderam perceber que aquilo que funcionava nos seus próprios testes nem sempre correspondia exatamente à experiência de outros utilizadores.
O projeto permitiu também abordar a literacia em Inteligência Artificial de uma forma prática: uma resposta produzida pela IA não foi entendida como produto final, mas como algo que necessitava de supervisão, verificação e revisão.
Reflexão da Professora
“Há experiências que não ficam fechadas no momento em que terminam; acompanham-nos, regressam mais tarde e pedem para ser repensadas. Foi assim com esta atividade, iniciada em 2023/2024 e retomada, revista e ampliada em 2025/2026.
Desde a primeira implementação, fui percebendo que o mais interessante não estava apenas no uso da Inteligência Artificial, mas naquilo que ela podia tornar possível quando surgia com propósito, ligada ao currículo e a uma situação real de aprendizagem. Tínhamos conteúdos de Espanhol para trabalhar e uma visita de estudo a Sevilha no horizonte. Foi desse encontro entre contexto, necessidade e tecnologia que nasceu ¡Descubre Sevilla con Manolo!
Talvez o momento mais revelador tenha acontecido quando Manolo saiu das mãos dos seus criadores e começou a conversar com os alunos da outra turma. O feedback dos pares levou os alunos a regressar ao que tinham construído, a rever escolhas, corrigir instruções e melhorar o chatbot. E foi aí que perceberam, de forma muito concreta, que trabalhar com IA não é aceitar o primeiro resultado, mas testar, questionar, verificar e assumir responsabilidade pelo que se cria.
Esta experiência reforçou uma convicção que continua a orientar o meu trabalho: a IA pode abrir novas possibilidades, mas só ganha verdadeiro sentido educativo quando permanece contextualizada, ética e responsável, e quando a tecnologia deixa de ser o centro para dar lugar à curiosidade, à criação e à aprendizagem.” Professora Cátia Pimenta Valéria
Texto elaborado pela professora Cátia Pimenta Valéria, a partir da sua planificação da atividade, reorganizado por Marta Pinto com apoio de IA generativa na edição.

